Fumar e Beber Pioram o Ronco? O Que a Ciência Diz

Fumar e Beber Pioram o Ronco? O Que a Ciência Diz

📅 Publicado em 22 de julho de 2026

✍️ Escrito por Cintia Siqueira — criadora do Parar de Roncar. Não sou médica, sou esposa de alguém com apneia moderada tratada com CPAP. Política de afiliados.

Fumantes têm até 4,4 vezes mais chance de desenvolver apneia moderada a grave do que quem nunca fumou — e, entre os fumantes pesados (dois maços por dia ou mais), esse risco chega a 40 vezes, segundo uma revisão publicada na base do NCBI (National Center for Biotechnology Information, dos Estados Unidos). Foi esse número que me fez parar e revisar tudo o que eu já sabia sobre o assunto, porque em quatro anos convivendo com o ronco do meu marido, dois deles já com o CPAP — que tem apneia obstrutiva moderada diagnosticada e usa CPAP todas as noites — eu sempre associei o hábito de beber à piora do ronco, mas nunca tinha me aprofundado de verdade no papel específico do cigarro.

Neste artigo eu reuni o que estudos indexados no NCBI, o Ministério da Saúde, a SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) e o INCA (Instituto Nacional de Câncer) mostram sobre como fumar e beber pioram o ronco — com um olhar mais demorado sobre o mecanismo do cigarro, que costuma ser menos comentado do que o do álcool.

Aviso importante: este artigo tem caráter informativo e educacional. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com um médico especialista em sono (pneumologista, otorrinolaringologista ou neurologista). Se você ronca com frequência, acorda cansado ou tem pausas na respiração durante o sono, procure avaliação profissional.

Sumário

O que a ciência diz sobre o cigarro e o ronco

O mecanismo por trás do cigarro é diferente do mecanismo do álcool, e entender essa diferença ajuda a explicar por que alguns fumantes roncam mesmo sem beber uma gota. A fumaça do cigarro contém milhares de substâncias químicas que irritam diretamente a mucosa das vias aéreas superiores — nariz, faringe e palato mole. Segundo o Ministério da Saúde, essa irritação provoca um processo inflamatório em que “o organismo aumenta a produção de muco e secreção” como resposta de defesa, o que estreita ainda mais a passagem do ar.

Uma revisão científica publicada no NCBI (PMC) detalha esse processo de forma mais específica para o sono: pacientes fumantes com apneia moderada a grave apresentaram “aumento de espessura e edema da mucosa uvular” e níveis mais altos de marcadores de inflamação neurogênica na garganta. Em outras palavras, a fumaça inflama e incha tecidos como a úvula e o palato mole, que já são estruturas estreitas por natureza — e esse inchaço aumenta a resistência à passagem do ar durante o sono, favorecendo tanto o ronco quanto os episódios de apneia.

pessoa tossindo levemente segurando a garganta, efeito do cigarro no ronco

A mesma revisão aponta um segundo mecanismo, ligado à nicotina em si: estudos mostram que a nicotina interfere nos reflexos neuromusculares que mantêm a via aérea aberta durante o sono, e que fumantes apresentam mais despertares noturnos e alterações na arquitetura do sono, com “latência do sono mais longa, tempo de sono mais curto e maior densidade de sono REM” em comparação a não fumantes. Ou seja, não é só a inflamação física — a nicotina também parece afetar o controle neurológico da respiração durante a noite.

Os números confirmam o padrão: a mesma fonte cita uma prevalência de tabagismo de 35% entre pacientes com apneia do sono, contra 18% entre pessoas sem apneia — quase o dobro. E um estudo publicado na revista científica Pneumologia, indexado no PubMed, descreve o tabagismo como “fator de risco independente” para ronco, associado ao desenvolvimento de apneia obstrutiva do sono, com um efeito sinérgico em que fumar e apneia juntos aumentam o risco cardiovascular por estresse oxidativo e disfunção endotelial.

Na prática: meu marido nunca fumou, então essa parte da pesquisa eu fiz mais como observadora curiosa do que como quem vive o problema em casa. Mas tenho um primo que fuma desde os vinte e poucos anos e, nas raras vezes em que dormimos na mesma casa em reuniões de família, o ronco dele sempre me chamou atenção por ser diferente do ronco “clássico” — mais rouco, mais seco, quase raspado, o que bate exatamente com o que a ciência descreve sobre a inflamação da mucosa da garganta em fumantes. Não é uma prova de nada, é só uma observação de quem passou anos prestando atenção nesse tipo de som depois de conviver com apneia em casa.

E o álcool, também piora o ronco?

Sim — e por um caminho diferente do cigarro. Enquanto a fumaça inflama e irrita os tecidos, o álcool age relaxando excessivamente a musculatura da garganta antes de dormir. A SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) recomenda explicitamente “evitar o consumo de álcool e sedativos” como parte das mudanças de hábito para quem tem apneia do sono, justamente porque esses músculos — que normalmente mantêm a via aérea aberta — perdem tônus sob efeito do álcool, facilitando o colapso da garganta durante o sono.

Esse tema eu já tratei com muito mais profundidade em outro artigo aqui do blog, focado especificamente em como o álcool afeta o ronco hora a hora, quanto tempo antes de dormir ele já faz efeito e o que isso significa para quem tem apneia diagnosticada. Se você bebe socialmente e quer entender o efeito específico do álcool, vale a leitura complementar a este artigo.

Fumar e beber juntos: o efeito é pior?

Do ponto de vista biológico, faz sentido que sim — fumar e beber pioram o ronco de formas que se somam, porque os dois mecanismos atuam em pontos diferentes da via aérea ao mesmo tempo: o cigarro inflama e estreita os tecidos da garganta e do nariz, enquanto o álcool relaxa a musculatura que sustenta essa mesma via aérea. Um estreitamento anatômico somado a uma musculatura mais frouxa tende a facilitar ainda mais o colapso da garganta durante o sono profundo — o momento em que o ronco costuma ficar mais intenso.

O estudo indexado no PubMed que mencionei acima também descreve um “efeito sinérgico” entre tabagismo e apneia do sono, em que ambos aumentam o risco cardiovascular por vias inflamatórias e de estresse oxidativo que se somam. Não encontrei, nas fontes que verifiquei para este artigo, um estudo específico medindo o efeito combinado de cigarro mais álcool no mesmo evento de sono — mas o raciocínio fisiológico, mecanismo por mecanismo, aponta para um efeito cumulativo, não isolado.

copo de água e chá de ervas na mesa de cabeceira no lugar do álcool

Os números do tabagismo no Brasil

Esses números ajudam a explicar por que fumar e beber pioram o ronco de tanta gente no Brasil. Para quem quer entender a dimensão do problema fora do consultório, os dados do INCA ajudam a dar contexto. Segundo o levantamento Vigitel 2024, 11,5% dos adultos brasileiros nas capitais são fumantes atuais — 13,9% entre os homens e 9,5% entre as mulheres. É uma queda expressiva frente aos 15,7% registrados em 2006, mas o próprio INCA alertou que, entre 2023 e 2024, o número de fumantes voltou a crescer no país pela primeira vez desde 2007, um dado preocupante para quem acompanha políticas de saúde pública.

O impacto financeiro também é relevante: segundo o estudo do INCA “A Conta que a Indústria do Tabaco Não Conta”, o Brasil gasta R$ 153 bilhões por ano com doenças relacionadas ao tabagismo, sendo R$ 67,2 bilhões em custos médicos diretos. Em mortes, o tabagismo está associado a 40 mil óbitos por doença pulmonar obstrutiva crônica, 30 mil por problemas cardiovasculares e 55 mil por câncer todos os anos no país. São números de saúde pública geral — mas, se o cigarro já compromete tanto o sistema respiratório de forma ampla, é coerente que ele também afete a qualidade do sono e o ronco de quem fuma, como mostram os estudos específicos sobre apneia citados neste artigo.

Na prática: se você fuma e ronca, a ciência aponta duas frentes de ação, mesmo que parar de fumar de vez seja um processo gradual e nem sempre simples. Primeiro, reduzir ao máximo o intervalo entre o cigarro e a hora de dormir ajuda a diminuir a inflamação aguda da mucosa bem no momento em que você mais precisa da via aérea desobstruída. Segundo, evitar álcool nas horas que antecedem o sono — principalmente combinado ao cigarro — reduz a soma dos dois mecanismos que citei acima. Em casa, como o CPAP do meu marido trata a causa mecânica da apneia dele, nós tratamos esses hábitos como parte do “entorno” do sono: o que cerca o tratamento principal, mas que também pesa na noite. Um dilatador nasal, por exemplo, pode ajudar a manter as narinas mais abertas quando a mucosa já está mais inchada por irritação — é um recurso complementar, não substitui avaliação médica nem tratamento de apneia diagnosticada.

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Cintia Siqueira — autora do Parar de Roncar

Sobre a autora: Cintia Siqueira

Cintia Siqueira é a autora do Parar de Roncar, blog dedicado a reunir informação confiável sobre ronco e apneia do sono para quem convive com o problema em casa. A motivação para o blog nasceu da própria experiência: o marido de Cintia tem apneia obstrutiva do sono moderada, diagnosticada por polissonografia, e trata a condição com CPAP desde então. Cintia não é profissional de saúde — todo o conteúdo é resultado de pesquisa cuidadosa em fontes científicas e institucionais (como SBPT, INCA, Ministério da Saúde e bases como o NCBI), revisado e citado com URLs verificáveis, e sempre complementado pela experiência prática de quem lida com o tratamento do ronco em casa há anos.

Lembrete de saúde: as informações deste artigo são baseadas em fontes científicas e institucionais públicas, mas não configuram diagnóstico, prescrição ou orientação médica individualizada. O ronco pode ter causas variadas, e a apneia do sono só é confirmada por exame (como a polissonografia). Consulte um médico especialista antes de tomar decisões sobre seu tratamento.

Perguntas frequentes

Parar de fumar melhora o ronco imediatamente?

Não necessariamente de um dia para o outro. A inflamação da mucosa das vias aéreas causada pelo cigarro tende a diminuir de forma gradual depois que a pessoa para de fumar, à medida que os tecidos da garganta e do nariz se recuperam. Alguns fumantes notam melhora do ronco em semanas; para outros, o processo é mais lento, especialmente se houver anos de exposição acumulada. De qualquer forma, os estudos indicam que parar de fumar tende a reduzir a inflamação que contribui para o ronco, mesmo que o efeito não seja imediato.

Quanto tempo depois de beber álcool o ronco costuma piorar?

O efeito relaxante do álcool sobre a musculatura da garganta já pode estar presente nas primeiras horas após o consumo, e costuma se manifestar com mais intensidade durante o sono profundo, quando o tônus muscular naturalmente já está mais baixo. Por isso, especialistas recomendam evitar bebida alcoólica nas horas que antecedem o sono. Este artigo trata do cigarro com mais profundidade; se você quer entender o efeito do álcool hora a hora, o blog tem um artigo específico sobre ronco e álcool.

Cigarro eletrônico (vape) também piora o ronco?

As fontes científicas verificadas para este artigo não trazem dados conclusivos e específicos sobre cigarro eletrônico e ronco, já que a maior parte dos estudos disponíveis foca no cigarro tradicional. Como o vape também envolve inalação de substâncias que podem irritar as vias aéreas, é razoável supor cautela, mas evito afirmar um mecanismo idêntico ao do cigarro convencional sem uma fonte que confirme isso especificamente. Se esse for o seu caso, vale conversar com um médico sobre os riscos respiratórios do vape de forma mais ampla.

Fumar pode causar apneia do sono mesmo em quem não ronca hoje?

Sim, é possível. O ronco costuma ser um sinal precoce de obstrução das vias aéreas, mas a inflamação causada pelo cigarro pode ir se acumulando ao longo do tempo até que o ronco — e depois a apneia — apareçam. Uma das fontes consultadas aponta que o tabagismo é considerado fator de risco independente tanto para ronco quanto para o desenvolvimento de apneia obstrutiva do sono, o que reforça a importância de monitorar sinais como cansaço ao acordar, mesmo sem ronco perceptível ainda.

Álcool à noite é mais perigoso para quem já tem apneia diagnosticada?

Sim. Para quem já tem apneia obstrutiva do sono diagnosticada, o relaxamento muscular causado pelo álcool pode aumentar a frequência e a duração dos episódios de obstrução da respiração durante a noite, já que a via aérea está anatomicamente mais propensa ao colapso. Por isso a SBPT recomenda evitar álcool e sedativos como parte do manejo da apneia. Quem usa CPAP, como é o caso do meu marido, também deve ter atenção redobrada, porque o álcool pode interferir na adesão e na eficácia do tratamento durante a noite. Essa avaliação deve ser feita com o médico responsável pelo tratamento.

Foto da autora do blog Parar de Roncar

Criadora do pararderoncar.com.br. Não sou médica — sou esposa de alguém com apneia obstrutiva do sono moderada, diagnosticada por polissonografia e tratada com CPAP. Escrevo com base em pesquisa cuidadosa em fontes científicas e institucionais, sempre complementada pela experiência prática de quem lida com o tratamento em casa.