Fumar e Beber Pioram o Ronco? O Que a Ciência Diz
Fumantes têm até 4,4 vezes mais chance de desenvolver apneia moderada a grave do que quem nunca fumou — e, entre os fumantes pesados (dois maços por dia ou mais), esse risco chega a 40 vezes, segundo uma revisão publicada na base do NCBI (National Center for Biotechnology Information, dos Estados Unidos). Foi esse número que me fez parar e revisar tudo o que eu já sabia sobre o assunto, porque em quatro anos convivendo com o ronco do meu marido, dois deles já com o CPAP — que tem apneia obstrutiva moderada diagnosticada e usa CPAP todas as noites — eu sempre associei o hábito de beber à piora do ronco, mas nunca tinha me aprofundado de verdade no papel específico do cigarro.
Neste artigo eu reuni o que estudos indexados no NCBI, o Ministério da Saúde, a SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) e o INCA (Instituto Nacional de Câncer) mostram sobre como fumar e beber pioram o ronco — com um olhar mais demorado sobre o mecanismo do cigarro, que costuma ser menos comentado do que o do álcool.
Aviso importante: este artigo tem caráter informativo e educacional. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com um médico especialista em sono (pneumologista, otorrinolaringologista ou neurologista). Se você ronca com frequência, acorda cansado ou tem pausas na respiração durante o sono, procure avaliação profissional.
Sumário
- O que a ciência diz sobre o cigarro e o ronco
- Na prática: o que eu observei sobre fumantes e ronco
- E o álcool, também piora o ronco?
- Fumar e beber juntos: o efeito é pior?
- Os números do tabagismo no Brasil
- Na prática: o que dá para fazer a partir de hoje
- Perguntas frequentes
O que a ciência diz sobre o cigarro e o ronco
O mecanismo por trás do cigarro é diferente do mecanismo do álcool, e entender essa diferença ajuda a explicar por que alguns fumantes roncam mesmo sem beber uma gota. A fumaça do cigarro contém milhares de substâncias químicas que irritam diretamente a mucosa das vias aéreas superiores — nariz, faringe e palato mole. Segundo o Ministério da Saúde, essa irritação provoca um processo inflamatório em que “o organismo aumenta a produção de muco e secreção” como resposta de defesa, o que estreita ainda mais a passagem do ar.
Uma revisão científica publicada no NCBI (PMC) detalha esse processo de forma mais específica para o sono: pacientes fumantes com apneia moderada a grave apresentaram “aumento de espessura e edema da mucosa uvular” e níveis mais altos de marcadores de inflamação neurogênica na garganta. Em outras palavras, a fumaça inflama e incha tecidos como a úvula e o palato mole, que já são estruturas estreitas por natureza — e esse inchaço aumenta a resistência à passagem do ar durante o sono, favorecendo tanto o ronco quanto os episódios de apneia.

A mesma revisão aponta um segundo mecanismo, ligado à nicotina em si: estudos mostram que a nicotina interfere nos reflexos neuromusculares que mantêm a via aérea aberta durante o sono, e que fumantes apresentam mais despertares noturnos e alterações na arquitetura do sono, com “latência do sono mais longa, tempo de sono mais curto e maior densidade de sono REM” em comparação a não fumantes. Ou seja, não é só a inflamação física — a nicotina também parece afetar o controle neurológico da respiração durante a noite.
Os números confirmam o padrão: a mesma fonte cita uma prevalência de tabagismo de 35% entre pacientes com apneia do sono, contra 18% entre pessoas sem apneia — quase o dobro. E um estudo publicado na revista científica Pneumologia, indexado no PubMed, descreve o tabagismo como “fator de risco independente” para ronco, associado ao desenvolvimento de apneia obstrutiva do sono, com um efeito sinérgico em que fumar e apneia juntos aumentam o risco cardiovascular por estresse oxidativo e disfunção endotelial.
Na prática: meu marido nunca fumou, então essa parte da pesquisa eu fiz mais como observadora curiosa do que como quem vive o problema em casa. Mas tenho um primo que fuma desde os vinte e poucos anos e, nas raras vezes em que dormimos na mesma casa em reuniões de família, o ronco dele sempre me chamou atenção por ser diferente do ronco “clássico” — mais rouco, mais seco, quase raspado, o que bate exatamente com o que a ciência descreve sobre a inflamação da mucosa da garganta em fumantes. Não é uma prova de nada, é só uma observação de quem passou anos prestando atenção nesse tipo de som depois de conviver com apneia em casa.
E o álcool, também piora o ronco?
Sim — e por um caminho diferente do cigarro. Enquanto a fumaça inflama e irrita os tecidos, o álcool age relaxando excessivamente a musculatura da garganta antes de dormir. A SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) recomenda explicitamente “evitar o consumo de álcool e sedativos” como parte das mudanças de hábito para quem tem apneia do sono, justamente porque esses músculos — que normalmente mantêm a via aérea aberta — perdem tônus sob efeito do álcool, facilitando o colapso da garganta durante o sono.
Esse tema eu já tratei com muito mais profundidade em outro artigo aqui do blog, focado especificamente em como o álcool afeta o ronco hora a hora, quanto tempo antes de dormir ele já faz efeito e o que isso significa para quem tem apneia diagnosticada. Se você bebe socialmente e quer entender o efeito específico do álcool, vale a leitura complementar a este artigo.
Fumar e beber juntos: o efeito é pior?
Do ponto de vista biológico, faz sentido que sim — fumar e beber pioram o ronco de formas que se somam, porque os dois mecanismos atuam em pontos diferentes da via aérea ao mesmo tempo: o cigarro inflama e estreita os tecidos da garganta e do nariz, enquanto o álcool relaxa a musculatura que sustenta essa mesma via aérea. Um estreitamento anatômico somado a uma musculatura mais frouxa tende a facilitar ainda mais o colapso da garganta durante o sono profundo — o momento em que o ronco costuma ficar mais intenso.
O estudo indexado no PubMed que mencionei acima também descreve um “efeito sinérgico” entre tabagismo e apneia do sono, em que ambos aumentam o risco cardiovascular por vias inflamatórias e de estresse oxidativo que se somam. Não encontrei, nas fontes que verifiquei para este artigo, um estudo específico medindo o efeito combinado de cigarro mais álcool no mesmo evento de sono — mas o raciocínio fisiológico, mecanismo por mecanismo, aponta para um efeito cumulativo, não isolado.

Os números do tabagismo no Brasil
Esses números ajudam a explicar por que fumar e beber pioram o ronco de tanta gente no Brasil. Para quem quer entender a dimensão do problema fora do consultório, os dados do INCA ajudam a dar contexto. Segundo o levantamento Vigitel 2024, 11,5% dos adultos brasileiros nas capitais são fumantes atuais — 13,9% entre os homens e 9,5% entre as mulheres. É uma queda expressiva frente aos 15,7% registrados em 2006, mas o próprio INCA alertou que, entre 2023 e 2024, o número de fumantes voltou a crescer no país pela primeira vez desde 2007, um dado preocupante para quem acompanha políticas de saúde pública.
O impacto financeiro também é relevante: segundo o estudo do INCA “A Conta que a Indústria do Tabaco Não Conta”, o Brasil gasta R$ 153 bilhões por ano com doenças relacionadas ao tabagismo, sendo R$ 67,2 bilhões em custos médicos diretos. Em mortes, o tabagismo está associado a 40 mil óbitos por doença pulmonar obstrutiva crônica, 30 mil por problemas cardiovasculares e 55 mil por câncer todos os anos no país. São números de saúde pública geral — mas, se o cigarro já compromete tanto o sistema respiratório de forma ampla, é coerente que ele também afete a qualidade do sono e o ronco de quem fuma, como mostram os estudos específicos sobre apneia citados neste artigo.
Na prática: se você fuma e ronca, a ciência aponta duas frentes de ação, mesmo que parar de fumar de vez seja um processo gradual e nem sempre simples. Primeiro, reduzir ao máximo o intervalo entre o cigarro e a hora de dormir ajuda a diminuir a inflamação aguda da mucosa bem no momento em que você mais precisa da via aérea desobstruída. Segundo, evitar álcool nas horas que antecedem o sono — principalmente combinado ao cigarro — reduz a soma dos dois mecanismos que citei acima. Em casa, como o CPAP do meu marido trata a causa mecânica da apneia dele, nós tratamos esses hábitos como parte do “entorno” do sono: o que cerca o tratamento principal, mas que também pesa na noite. Um dilatador nasal, por exemplo, pode ajudar a manter as narinas mais abertas quando a mucosa já está mais inchada por irritação — é um recurso complementar, não substitui avaliação médica nem tratamento de apneia diagnosticada.
Quer ajudar a desobstruir a respiração nasal hoje à noite?
Sobre quem escreveu este artigo
Cintia Siqueira é a autora do Parar de Roncar, blog dedicado a reunir informação confiável sobre ronco e apneia do sono para quem convive com o problema em casa. A motivação para o blog nasceu da própria experiência: o marido de Cintia tem apneia obstrutiva do sono moderada, diagnosticada por polissonografia, e trata a condição com CPAP desde então. Cintia não é profissional de saúde — todo o conteúdo é resultado de pesquisa cuidadosa em fontes científicas e institucionais (como SBPT, INCA, Ministério da Saúde e bases como o NCBI), revisado e citado com URLs verificáveis, e sempre complementado pela experiência prática de quem lida com o tratamento do ronco em casa há anos.
Lembrete de saúde: as informações deste artigo são baseadas em fontes científicas e institucionais públicas, mas não configuram diagnóstico, prescrição ou orientação médica individualizada. O ronco pode ter causas variadas, e a apneia do sono só é confirmada por exame (como a polissonografia). Consulte um médico especialista antes de tomar decisões sobre seu tratamento.
Perguntas frequentes
Parar de fumar melhora o ronco imediatamente?
Não necessariamente de um dia para o outro. A inflamação da mucosa das vias aéreas causada pelo cigarro tende a diminuir de forma gradual depois que a pessoa para de fumar, à medida que os tecidos da garganta e do nariz se recuperam. Alguns fumantes notam melhora do ronco em semanas; para outros, o processo é mais lento, especialmente se houver anos de exposição acumulada. De qualquer forma, os estudos indicam que parar de fumar tende a reduzir a inflamação que contribui para o ronco, mesmo que o efeito não seja imediato.
Quanto tempo depois de beber álcool o ronco costuma piorar?
O efeito relaxante do álcool sobre a musculatura da garganta já pode estar presente nas primeiras horas após o consumo, e costuma se manifestar com mais intensidade durante o sono profundo, quando o tônus muscular naturalmente já está mais baixo. Por isso, especialistas recomendam evitar bebida alcoólica nas horas que antecedem o sono. Este artigo trata do cigarro com mais profundidade; se você quer entender o efeito do álcool hora a hora, o blog tem um artigo específico sobre ronco e álcool.
Cigarro eletrônico (vape) também piora o ronco?
As fontes científicas verificadas para este artigo não trazem dados conclusivos e específicos sobre cigarro eletrônico e ronco, já que a maior parte dos estudos disponíveis foca no cigarro tradicional. Como o vape também envolve inalação de substâncias que podem irritar as vias aéreas, é razoável supor cautela, mas evito afirmar um mecanismo idêntico ao do cigarro convencional sem uma fonte que confirme isso especificamente. Se esse for o seu caso, vale conversar com um médico sobre os riscos respiratórios do vape de forma mais ampla.
Fumar pode causar apneia do sono mesmo em quem não ronca hoje?
Sim, é possível. O ronco costuma ser um sinal precoce de obstrução das vias aéreas, mas a inflamação causada pelo cigarro pode ir se acumulando ao longo do tempo até que o ronco — e depois a apneia — apareçam. Uma das fontes consultadas aponta que o tabagismo é considerado fator de risco independente tanto para ronco quanto para o desenvolvimento de apneia obstrutiva do sono, o que reforça a importância de monitorar sinais como cansaço ao acordar, mesmo sem ronco perceptível ainda.
Álcool à noite é mais perigoso para quem já tem apneia diagnosticada?
Sim. Para quem já tem apneia obstrutiva do sono diagnosticada, o relaxamento muscular causado pelo álcool pode aumentar a frequência e a duração dos episódios de obstrução da respiração durante a noite, já que a via aérea está anatomicamente mais propensa ao colapso. Por isso a SBPT recomenda evitar álcool e sedativos como parte do manejo da apneia. Quem usa CPAP, como é o caso do meu marido, também deve ter atenção redobrada, porque o álcool pode interferir na adesão e na eficácia do tratamento durante a noite. Essa avaliação deve ser feita com o médico responsável pelo tratamento.
Pesquisadora de saúde do sono e bem-estar. Criadora do pararderoncar.com.br, dedicada a ajudar pessoas que sofrem com ronco e apneia do sono a encontrar soluções práticas e acessíveis.
