Cirurgia para Ronco: Quando é Indicada e o Que Esperar

Foi na segunda consulta de retorno com o otorrino, uns três meses depois que o CPAP do meu marido já estava ajustado e funcionando bem à noite, que ele fez a pergunta que eu também estava curiosa para ouvir a resposta: “doutor, em algum momento isso vira cirurgia, ou eu uso essa máquina pro resto da vida?” A resposta não foi um “sim” nem um “não” — foi uma explicação de quase dez minutos sobre quando a cirurgia para ronco realmente entra em cena, e por que, no caso dele (apneia moderada, boa adaptação ao CPAP), ainda não era essa a indicação. Essa conversa me fez pesquisar o assunto a fundo, e é isso que eu organizei aqui: quando a cirurgia para ronco é indicada de verdade, quais são as técnicas mais usadas no Brasil e o que esperar de cada uma — recuperação, riscos e taxa de sucesso incluídos.

⚠️ Aviso importante: este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. A indicação de cirurgia para ronco ou para apneia do sono só pode ser feita por um otorrinolaringologista ou médico do sono, depois de exame físico, nasoendoscopia e, na maioria dos casos, uma polissonografia. Não use este texto para se autodiagnosticar ou decidir sozinho(a) por um procedimento cirúrgico.

Neste artigo você vai encontrar:

O que é a cirurgia para ronco e quando ela entra no tratamento

Cirurgia para ronco não é um procedimento único — é um grupo de técnicas que tentam corrigir, fisicamente, o ponto das vias aéreas superiores que está vibrando (causando o ronco) ou colapsando (causando apneia) durante o sono. Pode ser o nariz (desvio de septo, cornetos aumentados), o palato mole e a úvula, a base da língua ou as amígdalas.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), o tratamento da apneia do sono é escolhido de acordo com a gravidade medida na polissonografia — o índice de apneia-hipopneia (IAH) classifica os casos em leve (5 a 15 eventos por hora), moderado (15 a 30) e acentuado (acima de 30). O CPAP é descrito pela própria SBPT como “o tratamento de escolha” para os casos moderados e acentuados, enquanto a cirurgia é tratada como algo excepcional: “procedimentos excepcionais, indicados apenas em casos selecionados”.

médico apontando para diagrama anatômico da garganta explicando tipos de cirurgia para ronco

Na prática, isso significa que a cirurgia para ronco quase nunca é a porta de entrada do tratamento. Uma revisão publicada no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology (BJORL/SciELO) sobre tratamento cirúrgico da síndrome da apneia obstrutiva do sono resume bem o cenário: pacientes costumam procurar a cirurgia depois de não conseguir sucesso com o tratamento clínico — e cita que entre 46% e 83% das pessoas não conseguem manter uma boa adesão ao CPAP (definida como uso de mais de 4 horas por noite). É esse grupo — que tentou o tratamento conservador e não conseguiu manter, ou que tem uma obstrução anatômica clara e corrigível — que forma o público real da cirurgia.

Antes de pensar em cirurgia: o que precisa ser tentado primeiro

Antes de qualquer conversa sobre bisturi, existe uma escada de tratamento que praticamente todo otorrino e pneumologista segue:

  • Mudanças comportamentais — perder peso, evitar álcool e sedativos à noite, dormir de lado em vez de de barriga para cima. Segundo a SBPT, isso costuma ser suficiente apenas nos casos leves.
  • Aparelho intraoral — indicado para apneia leve e para casos moderados selecionados, quando a pessoa não se adapta ao CPAP.
  • CPAP — o tratamento de escolha para apneia moderada a acentuada, por gerar uma pressão de ar contínua que impede o colapso da garganta durante o sono.

Só depois que essas opções foram tentadas — e não funcionaram, ou a pessoa não consegue tolerar o CPAP mesmo com ajustes de máscara e pressão — é que a cirurgia costuma entrar na conversa, segundo o mesmo consenso de tratamento publicado no BJORL.

Na prática (lá em casa):

O diagnóstico do meu marido saiu de uma polissonografia: apneia moderada. Antes de falar em qualquer outra coisa, o médico foi direto ao CPAP — “é o padrão-ouro pra esse grau, vamos começar por aí e ver como o corpo responde”. Levou cerca de três semanas pra ele se acostumar com a máscara (as duas primeiras noites foram bem desconfortáveis, ele tirava no meio da madrugada sem perceber), mas depois que ajustamos o tamanho da máscara e a pressão do aparelho, ele passou a dormir a noite inteira com ela. Foi só nesse ponto — CPAP funcionando bem — que a pergunta sobre cirurgia surgiu, e a resposta do médico foi clara: enquanto o CPAP resolve e ele usa direitinho, não existe indicação cirúrgica pra ele. Cirurgia, segundo o médico, seria conversa pra outro momento, se um dia o CPAP parasse de funcionar ou ele não conseguisse mais tolerar o uso.

Antes de cogitar qualquer cirurgia, vale testar o que é reversível e não invasivo. Um dilatador nasal simples ajuda a melhorar a respiração pelo nariz durante o sono e pode reduzir o ronco leve — é o tipo de coisa que dá pra testar em uma noite, sem risco nenhum.

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As cirurgias mais indicadas para ronco e apneia

Dentro do grupo de cirurgias para ronco e apneia leve a moderada, três técnicas aparecem com mais frequência na literatura brasileira e são as que o otorrino mais costuma discutir com o paciente. Vale lembrar que casos mais graves — em que há colapso em vários pontos da via aérea ao mesmo tempo — podem exigir cirurgias maiores, como o avanço maxilomandibular, que não é o foco deste artigo. Aqui, o objetivo é explicar as três cirurgias mais comuns.

Uvulopalatofaringoplastia (UPFP)

É a cirurgia mais antiga para apneia do sono — descrita desde 1964 — e também a mais conhecida. Consiste em remover e reposicionar tecido excedente do palato mole, dos pilares (principalmente o posterior) e da úvula, criando mais espaço na garganta. Versões mais modernas da técnica são menos agressivas que as originais e preservam mais estrutura do que as primeiras versões usadas há décadas.

Sobre os resultados, a revisão publicada no BJORL/SciELO traz números concretos: a UPFP reduz o índice de apneia-hipopneia em média 33%, com taxa de sucesso de 51,5%. Já o Sleep Foundation, organização americana de referência em sono, resume de forma parecida: cerca de metade das pessoas operadas relata “significativamente menos perturbações respiratórias durante o sono” depois do procedimento — mas a resolução completa dos sintomas é incomum, e algumas pessoas ainda precisam continuar usando CPAP depois de operadas.

Cirurgia de septo nasal (septoplastia)

Quando o ronco (ou a dificuldade de adaptação ao CPAP) tem origem numa obstrução nasal — um desvio de septo, por exemplo — a septoplastia corrige essa estrutura para melhorar a passagem de ar pelo nariz. É importante entender uma coisa que a literatura deixa clara: a cirurgia nasal melhora o ronco percebido e a qualidade de vida, e frequentemente melhora a adesão ao CPAP (porque a pessoa passa a respirar melhor pelo nariz com a máscara), mas isoladamente não costuma melhorar os parâmetros medidos na polissonografia, segundo a revisão do BJORL/SciELO. Ou seja: raramente é usada como tratamento único da apneia — é mais um “facilitador” dos outros tratamentos ou uma solução para o ronco causado especificamente por obstrução nasal.

Radiofrequência de palato

É a opção menos invasiva das três. Usa energia de radiofrequência aplicada no palato mole para enrijecer o tecido e reduzir a vibração que causa o ronco, geralmente em consultório, sem necessidade de internação. Estudos brasileiros publicados no BJORL/SciELO mostram redução relevante do ronco relatado pelo parceiro(a) de quarto (numa escala de intensidade, a média caiu de 8,1 para 5,2), mas também são claros numa limitação importante: a radiofrequência de palato não mostrou melhora consistente do índice de apneia-hipopneia nem da escala de sonolência de Epworth, e não deve ser considerada resolutiva numa única sessão. Por isso, ela é indicada principalmente para ronco primário — sem apneia relevante e sem sonolência excessiva durante o dia — e não como tratamento isolado de apneia moderada ou acentuada.

homem em recuperação em casa após cirurgia para ronco

Riscos e recuperação: o que esperar de verdade

Nenhuma cirurgia é isenta de risco, e é importante que isso fique claro antes de decidir qualquer coisa:

  • UPFP: o Sleep Foundation lista dor pós-operatória, sangramento, infecção e alterações na voz como riscos possíveis, além de dificuldades de deglutição e alimentação em até um terço dos operados nas primeiras semanas. A recuperação costuma levar de duas a três semanas, com restrição de atividades físicas intensas e cuidados específicos com alimentação. Efeitos colaterais graves são raros, segundo a mesma fonte. Técnicas mais antigas de UPFP também foram associadas a complicações como estenose (estreitamento) da nasofaringe e insuficiência velofaríngea, mas as abordagens atuais reduziram bastante esse risco.
  • Radiofrequência de palato: é considerada de baixo risco, mas não é isenta. Uma revisão de casos publicada no BJORL/SciELO identificou fístula palatina (uma pequena comunicação entre a boca e o nariz) em cerca de 1,7% das sessões avaliadas na literatura — a maioria pequena e resolvida sozinha em algumas semanas, mas pelo menos um caso precisou de correção cirúrgica adicional. Outras complicações descritas incluem ulceração da mucosa, formação de crostas e sangramento.
  • Septoplastia: é uma cirurgia nasal consolidada, geralmente com recuperação mais rápida que a UPFP, mas ainda envolve riscos cirúrgicos padrão (sangramento, infecção, desconforto nasal nos primeiros dias) e exige avaliação individual do otorrino.

Um ponto que vale reforçar: em todas as técnicas, a recuperação real e o resultado dependem muito da anatomia de cada pessoa, da técnica exata usada e da experiência do cirurgião. Os números que citei aqui são médias de estudos — não uma garantia individual.

Quando a cirurgia para ronco realmente vale a pena

Juntando o que a SBPT, o consenso publicado no BJORL e o Sleep Foundation colocam, a cirurgia para ronco costuma fazer sentido quando pelo menos uma dessas situações está presente:

  • Há uma obstrução anatômica clara e identificada em exame (desvio de septo importante, amígdalas muito aumentadas, excesso real de tecido no palato) — não apenas “ronco alto” sem causa definida.
  • O tratamento conservador (CPAP, aparelho intraoral, mudança de hábitos) foi tentado de forma consistente e não funcionou, ou a pessoa não consegue tolerar o CPAP mesmo depois de ajustes de máscara e pressão.
  • O caso é de ronco primário (sem apneia relevante) e a pessoa já entende que a radiofrequência, por exemplo, pode não ser definitiva e talvez precise de mais de uma sessão.

Na prática (lá em casa):

Quando meu marido perguntou sobre cirurgia naquela consulta, o médico foi bem direto sobre o motivo de não indicar: “você não tem desvio de septo relevante, seu palato não tem excesso de tecido que justifique operar, e o CPAP está funcionando — não faz sentido te expor a um risco cirúrgico sem necessidade”. Ele também comentou algo que me chamou atenção: muita gente pesquisa cirurgia pensando nela como um “atalho” pra não usar CPAP, mas na maioria dos casos moderados como o dele, o aparelho bem ajustado resolve com muito menos risco do que uma cirurgia. A cirurgia, segundo ele, é pensada pra quem realmente esgotou as outras opções ou tem uma causa anatômica óbvia — não como preferência de conforto.

Sobre quem escreve

Eu sou Cintia Siqueira, criadora do Parar de Roncar. Não sou médica — sou esposa de alguém diagnosticado com apneia moderada do sono, tratado com CPAP, e desde então pesquiso e organizo, com base em fontes médicas confiáveis, o que realmente funciona (e o que não funciona) no dia a dia de quem convive com ronco e apneia. Cada artigo aqui passa por checagem em fontes como SBPT, SciELO e Sleep Foundation antes de ser publicado.

⚠️ Lembrete: as informações acima são um resumo educativo baseado em fontes médicas públicas e não substituem uma avaliação individual. Só um médico pode dizer se a cirurgia para ronco é indicada no seu caso ou no caso de quem dorme ao seu lado.

Perguntas frequentes sobre cirurgia para ronco

Cirurgia para ronco cura o ronco definitivamente?

Depende da técnica e da causa. Na UPFP, por exemplo, cerca de metade dos operados relata melhora significativa, mas a resolução completa é incomum e alguns ainda precisam de CPAP depois. Na radiofrequência de palato, a melhora costuma ser parcial e pode exigir mais de uma sessão. Não existe garantia de “cura definitiva” em nenhuma das técnicas — o resultado varia por pessoa.

Cirurgia para ronco resolve a apneia do sono também?

Nem sempre. A radiofrequência de palato, por exemplo, não mostrou melhora consistente do índice de apneia-hipopneia em estudos — ela é voltada principalmente para ronco primário. Já a UPFP pode reduzir o IAH em média 33%, mas isso não significa cura da apneia em todos os casos. Cada situação precisa ser avaliada com nova polissonografia após a cirurgia.

Quanto tempo dura a recuperação da cirurgia para ronco?

Varia por técnica. A UPFP costuma exigir de duas a três semanas de recuperação, com restrição de esforço físico e cuidados com alimentação. A radiofrequência de palato, por ser um procedimento ambulatorial, tem recuperação bem mais rápida — geralmente poucos dias de desconforto leve. A septoplastia fica numa posição intermediária, com recuperação nasal de alguns dias a duas semanas.

Quais são os principais riscos da cirurgia para ronco?

Na UPFP, os riscos descritos incluem dor pós-operatória, sangramento, infecção, mudanças na voz e dificuldade de deglutição em parte dos pacientes nas primeiras semanas. Na radiofrequência de palato, o risco mais discutido na literatura é a fístula palatina, presente em cerca de 1,7% das sessões avaliadas, geralmente pequena e resolvida sem cirurgia adicional. Toda cirurgia também carrega os riscos padrão de qualquer procedimento (anestesia, sangramento, infecção).

Quem deve considerar cirurgia para ronco em vez de CPAP?

Basicamente, quem já tentou tratamento conservador (mudança de hábitos, aparelho intraoral, CPAP) e não conseguiu resultado ou tolerância — ou quem tem uma obstrução anatômica clara identificada em exame (como desvio de septo importante). Segundo a literatura médica, a cirurgia não costuma ser recomendada como primeira opção justamente porque o CPAP, quando bem ajustado, tem eficácia mais previsível e menos risco.

Foto da autora do blog Parar de Roncar

Pesquisadora de saúde do sono e bem-estar. Criadora do pararderoncar.com.br, dedicada a ajudar pessoas que sofrem com ronco e apneia do sono a encontrar soluções práticas e acessíveis.