Lembro exatamente da noite. Era uma quarta-feira, eu tinha uma reunião importante marcada pra oito da manhã seguinte, e fiz a burrice de ficar olhando pro relógio do celular toda vez que acordava. 1h40. 2h15. 3h05. O ronco do meu marido enchia o quarto inteiro, subia e descia como uma serra elétrica, e eu virava de um lado, do outro, puxava o travesseiro por cima da cabeça, e nada resolvia. Às 3h05, cansada de fingir que estava tudo bem, cutuquei o braço dele, ele resmungou um “desculpa” sonolento, virou de lado por dois minutos e voltou a roncar exatamente igual.
No sábado seguinte, com café na mesa e a cabeça mais descansada, eu disse a ele: “preciso que a gente converse sobre isso de verdade, sem ser às três da manhã com raiva”. Foi ali que começou tudo — não um produto milagroso, mas uma conversa. Este artigo é sobre o que veio depois: como é dormir com quem ronca na prática, o que eu tentei antes do diagnóstico dele, o que mudou com o CPAP, e o que realmente funciona na nossa rotina hoje.
“Eu passei anos achando que o problema era eu ser ‘sono leve demais’. Só depois descobri que dormir mal ao lado de alguém que ronca alto não é frescura, é fisiologia. E que existiam estratégias reais — algumas que funcionaram pra mim, outras que eu tentei e abandonei — antes mesmo de chegarmos ao diagnóstico da apneia dele.”
📋 Neste artigo você vai ver:
- Por que dormir com quem ronca afeta tanto o seu sono
- Antes do diagnóstico: o que eu tentei (e o que não funcionou)
- Quando a apneia ganhou nome: o diagnóstico do meu marido
- Depois do CPAP: o ronco sumiu, mas surgiu um barulho novo
- O que funciona de verdade na nossa rotina hoje
- Quando vale considerar dormir em cômodos separados
- Perguntas frequentes
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Por que dormir com quem ronca afeta tanto o seu sono
Por muito tempo eu me senti meio ridícula reclamando do ronco. Afinal, “é só um barulho”, “todo casal passa por isso”, “você devia relevar”. Só que a ciência do sono discorda dessa ideia de que é frescura. Uma revisão de estudos publicada no PMC (base de dados da National Library of Medicine dos EUA) mostra que parceiros de pessoas com ronco pesado ou apneia obstrutiva do sono chegam a ser até três vezes mais propensos a relatar sintomas de insônia do que parceiros de quem não ronca — e, em um dos estudos revisados, 55% dos parceiros disseram que o ronco atrapalhava o sono quase todas as noites, com 69% relatando perturbação moderada a grave do sono por causa do barulho.
Faz sentido quando você para pra pensar em decibéis. Um estudo publicado também na base do NCBI mediu o ronco de 162 pessoas e encontrou uma intensidade média de 45,4 dB(A) — bem em cima do limite de 45 dB(A) que a Organização Mundial da Saúde considera capaz de causar distúrbio do sono, e 14% dos participantes ultrapassaram os 53 dB(A), nível associado a eventos cardiovasculares por exposição contínua a ruído noturno. Ou seja: não é exagero sentir que aquele som “faz mal”. Ele realmente compete com o seu descanso, noite após noite.

Tem ainda um outro lado, que a literatura médica brasileira reforça: o relato do cônjuge muitas vezes é mais confiável do que o do próprio paciente. Artigos da SciELO sobre apneia obstrutiva do sono destacam que, como os episódios de apneia acontecem durante o sono, o próprio paciente raramente percebe que parou de respirar — por isso a anamnese (a entrevista clínica) precisa incluir quem dorme ao lado. Na prática, isso significa que a pessoa que “só” está tentando dormir com o ronco do parceiro também é, sem saber, uma peça central do diagnóstico.
Antes do diagnóstico: o que eu tentei (e o que não funcionou)
Antes de chegarmos a qualquer diagnóstico, passei uns bons dois anos testando de tudo pra conseguir dormir. Vou ser sincera sobre o que funcionou e o que não funcionou, porque acho que isso ajuda mais do que uma lista genérica de dicas.
- Tampão de ouvido: foi a primeira coisa que tentei, e funcionou parcialmente. Os de espuma comum abafavam boa parte do ronco “normal”, mas nas noites piores (geralmente depois que ele bebia uma cerveja ou dormia de barriga pra cima) o som ainda passava. Também levei um tempo pra me acostumar com a sensação de dormir com algo no ouvido — as primeiras semanas foram desconfortáveis.
- Dormir de lado (ele, não eu): essa foi surpreendentemente eficaz por um tempo. Cutucar de leve e pedir pra virar de lado reduzia bastante o ronco, porque a língua e o céu da boca colabam menos com a garganta nessa posição. O problema é que ele virava de volta de costas depois de um tempo dormindo, e eu não conseguia ficar cutucando a noite inteira sem também perder o sono.
- App de ruído branco: esse foi o que mais me ajudou de verdade nesse período. Um app simples de chuva ou ventilador no celular, tocando a noite toda perto da cama, não elimina o ronco, mas “achata” o contraste entre silêncio e barulho súbito — que é o que mais acorda a gente. Ainda uso até hoje, mesmo depois do CPAP.
- Quarto separado ocasional: em algumas fases (principalmente quando eu estava amamentando e já dormia pouco por outros motivos), eu ia dormir no quarto de hóspedes em noites específicas. Funcionava para o sono, mas eu sentia um certo peso emocional nisso — como se estivéssemos “brigados”, mesmo quando não estava relacionado a nenhuma briga.
Nenhuma dessas estratégias resolvia a causa. Elas me ajudavam a sobreviver às noites, mas o ronco continuava lá, ficando cada vez mais alto com o passar dos anos — o que, olhando em retrospecto, era um sinal que eu devia ter levado mais a sério antes.
Quando a apneia ganhou nome: o diagnóstico do meu marido
O que finalmente nos fez procurar um médico não foi o ronco em si, foi o cansaço dele durante o dia — cochilos no sofá logo depois do almoço, irritação sem motivo aparente, e uma vez ele quase dormiu no sinal fechado. Eu já vinha comentando havia meses sobre as pausas na respiração que eu ouvia à noite, mas foi a soma dos sintomas diurnos que nos levou ao otorrino e, depois, a um exame de polissonografia.
O resultado veio com um nome que eu não esperava: apneia obstrutiva do sono moderada. Não era só ronco “chato”, era um problema respiratório real, com pausas que reduziam o oxigênio no sangue dele dezenas de vezes por noite. A recomendação médica foi tratamento com CPAP (um aparelho que mantém as vias aéreas abertas através de um fluxo contínuo de ar por uma máscara). Confesso que meu primeiro sentimento foi alívio — finalmente tínhamos uma explicação e um caminho, em vez de “só” um ronco que a gente não sabia como resolver.
Depois do CPAP: o ronco sumiu, mas surgiu um barulho novo
Aqui está uma parte que pouca gente comenta: o CPAP resolveu o ronco quase que da noite pro dia, mas trouxe um som novo pra minha vida — o zumbido baixo e constante da máquina, além do ruído do ar passando pela máscara. Não é nada parecido com o ronco em intensidade, mas nas primeiras semanas eu estranhei tanto quanto estranhei o silêncio.
E não fui só eu: uma revisão de estudos sobre o impacto da apneia e de seus tratamentos nos parceiros (publicada também na base do NCBI) descreve exatamente essa fase de adaptação. Em um dos estudos citados, seis parceiros relataram perturbação moderada a grave do sono relacionada ao próprio CPAP — principalmente por causa do ruído da máquina ou do ar frio saindo da máscara. A mesma revisão registra um relato curioso, que bati o olho e me identifiquei na hora: parceiros descrevem ficar “alarmados” nas primeiras noites por não ouvir mais o ronco, como se algo estivesse errado, até se acostumarem com o novo silêncio. Depois dessa adaptação, a qualidade do sono dos parceiros melhora de forma sustentada, em alguns estudos por até um ano de acompanhamento.

O que funciona de verdade na nossa rotina hoje
Somando o antes e o depois do CPAP, cheguei numa combinação de hábitos que realmente sustenta o meu sono hoje — e que recomendo testar, porque cada casa tem uma configuração diferente de causa e efeito:
- Travesseiro que favorece a posição de lado: tanto pra mim quanto pra ele. Um travesseiro ortopédico mais firme ajuda a manter o pescoço alinhado e facilita ficar de lado a noite inteira, tanto pra reduzir o ronco residual (nas raras noites sem CPAP, tipo viagem) quanto pra melhorar meu próprio sono.
- Ruído branco constante: continuo usando, agora mais pra mascarar o zumbido baixo do CPAP do que o ronco em si.
- Rotina de manutenção do CPAP: máscara e mangueira limpas semanalmente, filtro trocado no prazo — isso reduz vazamentos de ar que costumam ser a maior fonte de barulho da máquina.
- Protetor auricular como plano B: guardo um par na gaveta da cabeceira pra noites em que, por algum motivo, o CPAP não está sendo usado (viagem sem o aparelho, por exemplo). Já testei alguns modelos e pretendo detalhar isso melhor — temos um artigo específico sobre protetores auriculares chegando aqui no blog, com as opções que mais funcionaram pra mim.
Quando vale considerar dormir em cômodos separados
Esse é um assunto que eu evitava falar por vergonha, achando que significava “problema no casamento”. Mas os números contam outra história: segundo uma pesquisa do Sleep Foundation com mais de 1.200 adultos nos Estados Unidos, cerca de 53% das pessoas que adotaram dormir em cômodos separados relataram melhora na qualidade do sono, com um aumento médio de 37 minutos de sono por noite. E mais interessante ainda: mais de um quarto dos casais que experimentam essa separação voltam a dividir a cama depois — muitas vezes porque, segundo a mesma pesquisa, “sentir falta um do outro” pesa mais do que o incômodo do ronco.
Na nossa casa, usamos isso como uma ferramenta temporária, não como regra fixa. Em fases de exaustão extrema (leia-se: recém-nascido em casa, viagem sem o CPAP, período de adaptação a um ajuste na máscara), dormir uma ou duas noites separados foi o que evitou que eu chegasse ao limite. Não é derrota, é estratégia — desde que seja combinado entre os dois, e não usado como punição ou fuga da conversa.
Perguntas frequentes sobre dormir com quem ronca
Como dormir com quem ronca sem precisar mudar de quarto?
Combine mais de uma estratégia ao mesmo tempo: ruído branco para mascarar o som, tampão de ouvido nas noites piores, e incentivar o parceiro a dormir de lado. Nenhuma dessas soluções isolada costuma bastar, mas juntas reduzem bastante o impacto no seu sono enquanto a causa do ronco é investigada.
Dormir com tampão de ouvido todos os dias faz mal?
Para a maioria das pessoas, tampões de espuma ou silicone usados à noite são seguros quando bem higienizados e trocados com regularidade. O mais comum é apenas um período de adaptação ao desconforto inicial, que costuma melhorar em poucas semanas de uso.
O CPAP do meu parceiro faz barulho e também atrapalha meu sono. É normal?
É comum nas primeiras semanas. O ruído da máquina e do ar saindo da máscara costuma incomodar no início, mas tende a ficar praticamente imperceptível com o tempo, principalmente com manutenção em dia (máscara sem vazamento, filtro trocado) e um umidificador aquecido, que reduz o ruído do ar seco.
Dormir em quartos separados por causa do ronco é sinal de problema no casamento?
Não necessariamente. Pesquisas mostram que boa parte dos casais que adota isso relata melhora real na qualidade do sono, e muitos voltam a dividir a cama depois que o motivo do afastamento (geralmente o ronco) é tratado. O importante é que seja uma decisão conversada entre os dois, não uma punição silenciosa.
Quando o ronco do parceiro deixa de ser só um incômodo e vira motivo de preocupação?
Quando vem acompanhado de pausas na respiração, engasgos, sono agitado ou sonolência intensa durante o dia. Esses sinais podem indicar apneia obstrutiva do sono, e o relato de quem dorme ao lado costuma ser essencial para o diagnóstico, já que a pessoa que ronca raramente percebe os próprios episódios.
Sobre a autora: Cintia Siqueira
Meu marido tem apneia do sono moderada, diagnosticada e tratada com CPAP. Passei anos aprendendo, na prática, como dormir com quem ronca — antes e depois do tratamento. Criei o Parar de Roncar para reunir informação honesta e baseada em experiência real, sem exageros e sem enrolação. Saiba mais sobre mim →
1 NCBI/PMC — Impact of Obstructive Sleep Apnea and Its Treatments on Partners: A Literature Review |
2 NCBI/PMC — Snoring: a source of noise pollution and sleep apnea predictor |
3 Sleep Foundation — What Is a Sleep Divorce? |
4 SciELO Brasil (RAMB) — Ronco e síndrome da apneia obstrutiva do sono
Última revisão editorial: julho de 2026. Conteúdo informativo — não substitui avaliação médica especializada.
Pesquisadora de saúde do sono e bem-estar. Criadora do pararderoncar.com.br, dedicada a ajudar pessoas que sofrem com ronco e apneia do sono a encontrar soluções práticas e acessíveis.
